
Um dos mais emblemáticos projetos sociais ligados ao peronismo na Argentina está prestes a passar por uma transformação radical. O governo de direita do presidente Javier Milei pretende transferir para a iniciativa privada o complexo turístico de Chapadmalal, conjunto de hotéis à beira-mar que durante décadas ofereceu férias subsidiadas com dinheiro público a trabalhadores argentinos de baixa renda.
Localizado a cerca de 30 quilômetros de Mar del Plata, o empreendimento foi construído no fim da década de 1940 durante o governo de Juan Domingo Perón e de sua esposa, Eva Perón, conhecida popularmente como Evita. O projeto simbolizava uma das principais bandeiras do peronismo: ampliar o acesso dos trabalhadores a benefícios sociais, incluindo o direito ao lazer e às férias.
Ao longo dos anos, milhares de argentinos puderam se hospedar nos nove hotéis do complexo por valores altamente subsidiados. Em alguns períodos, uma semana de estadia com alimentação incluída custava apenas alguns dólares por noite. O local chegou a receber até 5 mil visitantes simultaneamente durante a alta temporada.
A proposta do governo Milei marca uma ruptura com essa tradição. Defensor de uma ampla redução da participação do Estado na economia, o presidente eliminou em 2025 a obrigação legal de manutenção do chamado “turismo social”. Em março deste ano, o governo anunciou a abertura de um processo para conceder a administração de Chapadmalal ao setor privado por um período de 30 anos.
Embora o terreno não possa ser vendido devido às condições originais de sua aquisição, a concessão permitirá que operadores privados assumam a gestão da estrutura. Outro complexo turístico estatal argentino, localizado na província de Córdoba, deverá ser vendido.
Para o governo, manter empreendimentos turísticos sob administração pública não faz sentido dentro da política de enxugamento da máquina estatal. O ministro da Desregulamentação, Federico Sturzenegger, já havia defendido a medida ao afirmar que o Estado não possui experiência nem vantagem competitiva para operar esse tipo de atividade, argumentando que a iniciativa privada poderia ampliar o potencial turístico da área.
A decisão tem provocado forte reação de sindicatos, ex-funcionários e setores ligados à esquerda. Críticos da medida afirmam que o fechamento do programa representa o abandono de uma política que permitia a trabalhadores de menor renda conhecer destinos turísticos antes inacessíveis.
Além da importância simbólica, Chapadmalal possui ampla infraestrutura, com restaurantes, centro médico, cinema, capela e teatros. Muitos visitantes vindos de regiões afastadas do interior argentino tiveram o primeiro contato com o Oceano Atlântico durante estadias no local.
Nos últimos anos, entretanto, o complexo enfrentou um período de deterioração causado pela falta de investimentos e pela redução gradual do número de visitantes. Entre 2019 e 2023, durante o governo peronista anterior, foram realizadas reformas que impulsionaram novamente a procura pelo destino.
Mesmo assim, o atual governo avançou com o encerramento das atividades. Em maio, cerca de 50 funcionários remanescentes foram demitidos, gerando protestos e ações judiciais movidas por sindicatos.
O governo da província de Buenos Aires, comandado por Axel Kicillof, chegou a solicitar autorização para assumir a administração dos hotéis, mas, segundo autoridades provinciais, não recebeu resposta da Casa Rosada.
Entre eles está o artista de rua Gustavo Casais, visitante habitual de Chapadmalal, que teme que a gestão privada torne as hospedagens inacessíveis para pessoas de baixa renda, alterando completamente o perfil histórico do local. E mais: Azul prepara novos cortes de voos após disparada dos custos com combustível. Clique AQUI para ver. (Foto: reprodução redes sociais; Fonte: Folha de SP)
