
O agronegócio brasileiro, responsável por uma parcela significativa das exportações nacionais, acompanha com preocupação uma mudança estratégica em curso na China que pode transformar o mercado global de alimentos nos próximos anos. A reportagem é da Folha de SP.
Acontece que o governo chinês decidiu acelerar medidas para diminuir sua dependência de fornecedores estrangeiros de produtos agrícolas, especialmente da soja, principal item exportado pelo Brasil para o país asiático.
Atualmente, a China absorve mais de dois terços da soja brasileira vendida ao exterior e responde por mais da metade das compras de carne bovina do Brasil. Essa forte concentração tornou o mercado chinês fundamental para o desempenho do setor agropecuário nacional. No primeiro mandato de Lula, foi o responsável pelos números da economia brasileira à época.
No entanto, autoridades de Pequim passaram a considerar essa dependência externa um fator de vulnerabilidade estratégica.
As diretrizes para essa transformação estão previstas no 15º Plano Quinquenal, que orientará as políticas chinesas entre 2026 e 2030. Entre as metas estabelecidas está a redução de aproximadamente 25% nas importações de soja até o final da década. Na prática, isso representaria uma diminuição de cerca de 23,5 milhões de toneladas nas compras externas do grão.
Caso a projeção se confirme, o impacto poderá ser significativo para o Brasil. O volume corresponde a uma parcela expressiva das exportações brasileiras destinadas à China e dificilmente seria absorvido por outros mercados em curto prazo. Especialistas avaliam que o cenário pode pressionar preços internacionais e reduzir a rentabilidade de áreas agrícolas e investimentos logísticos voltados ao comércio com os chineses.
A nova estratégia chinesa segue uma lógica semelhante à utilizada pelo país em setores industriais nos quais conquistou liderança global, como energia solar e veículos elétricos. Agora, o objetivo é aplicar esse modelo ao setor agroalimentar, combinando planejamento estatal, incentivos financeiros e inovação tecnológica.
No novo plano, a segurança alimentar foi colocada entre as prioridades nacionais, ao lado das áreas energética e financeira. A intenção é reduzir a exposição do país às oscilações externas e diminuir o déficit comercial agrícola, que atualmente supera US$ 120 bilhões.
Embora reconheça que a autossuficiência total seja inviável devido à limitação de terras cultiváveis e recursos hídricos, a China busca construir uma estrutura considerada mais segura, baseada na ampliação da produção doméstica, diversificação de fornecedores e desenvolvimento tecnológico.
Para atingir essas metas, o governo prevê a oferta de crédito subsidiado por bancos estatais, programas de incentivo e investimentos contínuos em pesquisa e inovação. A estratégia busca acelerar a adoção de novas tecnologias e ampliar a capacidade produtiva antes mesmo da consolidação comercial de determinados projetos.
A preocupação chinesa com a segurança alimentar tem raízes históricas. Entre 1959 e 1961, o país enfrentou a chamada Grande Fome, consequência das políticas econômicas comunistas e fracassadas implementadas durante o programa “Grande Salto Adiante”, liderado por Mao Tsé-Tung. O episódio resultou na morte de dezenas de milhões de pessoas e permanece como uma das maiores tragédias humanitárias do século XX.
Além de ampliar a produção de grãos, Pequim também trabalha para reduzir o consumo de soja na alimentação animal. O governo estabeleceu metas para diminuir gradualmente a participação do farelo de soja nas rações. Grandes empresas do setor já vêm adotando essa estratégia. A gigante chinesa Muyuan Foods, considerada uma das maiores produtoras de carne suína do mundo, conseguiu reduzir significativamente o uso do grão em suas operações.
Os planos chineses vão além da autossuficiência. A longo prazo, o país pretende ampliar sua presença como exportador de alimentos, incluindo aves, ovos, laticínios e produtos aquícolas. Esse movimento pode aumentar a concorrência internacional para produtores tradicionais, entre eles o Brasil.
Outra aposta relevante está na chamada biomanufatura. O governo investe no desenvolvimento de proteínas vegetais, produtos obtidos por fermentação e carnes cultivadas em laboratório. As projeções indicam que essas alternativas poderão responder por uma parcela significativa do consumo interno de proteínas nas próximas décadas.
Segundo estudos do Systemiq e diretrizes do 15º Plano Quinquenal chinês (2026-2030), as chamadas proteínas alternativas — como produtos vegetais, fermentados e cultivados em laboratório — devem ganhar participação crescente na dieta chinesa.
A estimativa é de que essas opções representem entre 14% e 16% do mercado de carne e frutos do mar até 2040, avançando para atender de 35% a 55% da demanda total por proteína animal até 2050.
No comércio exterior, a dependência chinesa de grandes fornecedores segue concentrada: em 2024, a Argentina respondeu por 75% das exportações de carne bovina para o país, seguida pelo Brasil com 54% e pela Nova Zelândia com 41%.
No caso da soja, o Brasil manteve posição central, com 71% das vendas ao mercado chinês, à frente da Argentina (89%) e dos Estados Unidos (53%), evidenciando a forte concentração geográfica das cadeias de abastecimento atualmente.
Apesar desse processo de transformação, o Brasil continua sendo visto por Pequim como um parceiro estratégico para garantir o abastecimento alimentar no curto prazo. Ainda assim, a nova política chinesa sinaliza que a dependência atual tende a diminuir gradualmente, impondo ao agronegócio brasileiro o desafio de diversificar mercados e buscar novas oportunidades de exportação nos próximos anos. E mais: Milei avança com privatização de projeto turístico criado por governo socialista. Clique AQUI para ver. (Foto: EBC; Fonte: Folha de SP)
