O economista Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, fez um alerta sobre a situação fiscal do Brasil e afirmou que o próximo presidente poderá assumir o governo diante de um quadro econômico bastante difícil. Em entrevista ao videocast Desenquadrando, da Folha, Fraga comparou o momento atual a condições que antecederam a forte recessão registrada durante o governo Dilma Rousseff. Veja trecho ao fim da reportagem.

Na avaliação do economista, a combinação entre aumento das despesas públicas, ano eleitoral e falta de coordenação entre as políticas fiscal e monetária pode ampliar os riscos para a economia.

“Agora já não tem mais dúvida, vai ser uma herança complicada mesmo, maldita, que sugere que nós estamos caminhando para uma situação difícil”, afirmou.

Fraga descreveu o cenário como uma espécie de disputa entre o governo, interessado em estimular a economia por meio de maiores gastos, e o Banco Central, que precisa manter uma política de juros capaz de conter a inflação. “Por que a gente não aprende?”, questionou.

Para o ex-presidente do BC, medidas que impulsionam artificialmente a atividade no curto prazo não solucionam os problemas estruturais e podem apenas transferir as consequências para os anos seguintes. “Estamos aqui, outra vez achando que esquentar a economia a curto prazo vai resolver os nossos problemas, e não vai.”

Segundo Fraga, alguns sinais de deterioração já podem ser observados em setores ligados ao consumo. O primeiro impacto, de acordo com sua análise, apareceu no crédito destinado às famílias, com o aumento do número de brasileiros inadimplentes.

Na sequência, os efeitos teriam alcançado o comércio varejista, setor caracterizado por margens reduzidas e forte dependência de financiamento para manter estoques e vendas. “Esse setor foi dizimado”, afirmou o economista.

O alerta ocorre mesmo diante de um mercado de trabalho que apresenta uma das menores taxas de desemprego da série histórica. Para Fraga, entretanto, o desempenho positivo da ocupação não é suficiente para representar toda a situação econômica do país.

Outro ponto criticado pelo economista foi a trajetória das despesas do governo. Segundo Fraga, os gastos públicos, que representavam aproximadamente 25% do Produto Interno Bruto algumas décadas atrás, atualmente estão próximos de 33%.

Na avaliação dele, a expansão do tamanho do Estado não foi acompanhada por um crescimento proporcional da economia brasileira. “Não teve austeridade”, resumiu.

Fraga também classificou como “medíocre” o desempenho do PIB per capita brasileiro nas últimas três décadas e relacionou parte desse resultado à condução da política fiscal.

Ao comparar o momento atual com períodos anteriores, o economista também citou o primeiro governo Luiz Inácio Lula da Silva. Para Fraga, aquela fase representou um período de maior confiança após a implementação do Plano Real, mas o país posteriormente teria retomado práticas econômicas que considera equivocadas.

“Aquilo ali foi um momento maravilhoso. Mas, depois, em um ataque assim meio de amnésia, os velhos vícios e as velhas ideias voltaram.”

Na avaliação de Fraga, o risco atual está em repetir um modelo baseado no aumento dos gastos para estimular a atividade no presente, deixando para os anos seguintes o custo do desequilíbrio fiscal.

Com a proximidade das eleições, o economista considera que o problema poderá se tornar uma das principais dificuldades enfrentadas pelo próximo governo, que terá de lidar com uma situação fiscal mais pressionada e menos espaço para adotar medidas de estímulo sem ampliar os riscos econômicos. E mais: Agora: TSE decide sobre post de Flávio contra Lula. Clique AQUI para ver. (Foto: reprodução; Fonte: Boletim RJ)

 

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