
Indústrias brasileiras que dependem do mercado dos Estados Unidos acompanham com preocupação a possibilidade de novas tarifas impostas contra produtos do Brasil. Setores como ferro-gusa, madeira processada e calçados afirmam que teriam dificuldades para encontrar novos destinos para suas exportações no curto prazo e avaliam que a medida poderia provocar redução na produção e cortes de empregos.
A preocupação aumentou após o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), órgão ligado à Casa Branca, concluir uma investigação comercial que apontou supostas práticas consideradas injustas e discriminatórias por parte do Brasil.
O relatório americano cita diferentes áreas, como mercados financeiros, etanol e questões ambientais, e sugere a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. A decisão final cabe ao presidente Donald Trump, que tem prazo até quarta-feira (15) para definir se adotará ou não a medida.
No setor de madeira processada, a expectativa é que os produtos brasileiros sejam incluídos em uma eventual lista de exceções. “Nós não temos um plano B, por ter essa distribuição bem consolidada ao redor do mundo da produção brasileira”, afirmou Paulo Pupo, superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci).
Atualmente, os Estados Unidos representam cerca de metade das exportações brasileiras de produtos como molduras de madeira, chapas de compensado, pallets, portas, pisos e madeira serrada. Parte desses produtos já é fabricada seguindo padrões específicos exigidos pelo mercado americano, principalmente pelo setor de construção civil.
Concentrado principalmente na região Sul do país, o segmento vinha se recuperando dos efeitos de uma tarifa de 40% aplicada entre julho de 2025 e fevereiro de 2026. Na ocasião, empresas reduziram a produção, adotaram férias coletivas e realizaram demissões.
Segundo Pupo, a entidade não possui um levantamento exato sobre o número de postos de trabalho perdidos naquele período, mas avalia que uma nova rodada de tarifas poderia repetir o cenário, com redução de empregos e queda nos investimentos.
“Esperamos ser incluídos na lista de isenções”, afirmou Fausto Cançado, presidente do Sindicato das Indústrias do Ferro de Minas Gerais (Sindifer), em referência à expectativa compartilhada por outros setores exportadores.
O impacto no ferro-gusa
O setor de ferro-gusa, matéria-prima utilizada na produção de aço, também teme grandes prejuízos. No ano passado, aproximadamente 75% da produção brasileira desse insumo foi destinada ao mercado externo. Desse volume, cerca de 80% tiveram como destino os Estados Unidos.
O Brasil responde por uma parcela significativa do fornecimento americano: seis em cada dez toneladas de ferro-gusa compradas pelos Estados Unidos vêm de empresas brasileiras.
Cançado afirma que a busca por novos mercados seria difícil no curto e médio prazo, já que o comércio internacional do produto possui uma estrutura bastante consolidada.
Em uma estimativa inicial, o Sindifer calcula que cerca de 55% das fábricas brasileiras de ferro-gusa poderiam interromper suas atividades, de forma temporária ou definitiva, caso as tarifas sejam implementadas.
O setor também enfrenta uma dificuldade operacional: reduzir drasticamente a produção em altos-fornos é um processo complexo e caro, já que essas unidades funcionam continuamente e são planejadas para determinados níveis de produção.
Calçados também seriam afetados
A indústria brasileira de calçados, que ainda se recupera de medidas tarifárias anteriores, também seria atingida por uma nova cobrança de 25% sobre as exportações para os Estados Unidos.
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), os principais impactos ocorreriam nos polos produtores do Rio Grande do Sul, São Paulo e Ceará, especialmente nas regiões do Vale dos Sinos, Vale do Paranhana-Encosta da Serra e Franca.
A entidade destaca que o Brasil exporta principalmente calçados de couro para o mercado americano, produtos desenvolvidos especificamente para atender às exigências dos consumidores daquele país.
A associação ressaltou que todos os segmentos da indústria calçadista seriam afetados, embora em diferentes níveis de dependência em relação ao mercado americano.
Segundo a Abicalçados, a produção brasileira de calçados caiu 1,9% no ano passado em comparação com 2024. A entidade, porém, afirma que a retração não pode ser atribuída exclusivamente às tarifas americanas, já que também houve desaceleração do consumo interno, principalmente no segundo semestre.
Risco bilionário
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que até US$ 14,9 bilhões (cerca de R$ 76 bilhões) em exportações brasileiras podem ser afetados caso os Estados Unidos adotem todas as tarifas sugeridas pelo USTR.
O cálculo considera uma possível tarifa de 25% relacionada à investigação sobre práticas comerciais e uma cobrança adicional de 12,5% ligada a outra investigação envolvendo trabalho escravo.
Além dessas medidas, permanecem em vigor tarifas gerais de 10% aplicadas pelos Estados Unidos por meio da Seção 122, com validade até o fim de julho, além de tarifas específicas impostas pelo Departamento de Estado americano com base na Seção 232, que atingem aproximadamente US$ 8 bilhões (R$ 41 bilhões) em produtos brasileiros.
Para a representante da entidade, a preferência dos Estados Unidos pelo uso de tarifas representa uma mudança mais ampla na política comercial americana e reforça a necessidade de o Brasil ampliar sua rede de parceiros comerciais.
“Existem setores que têm processos produtivos longos, como o de madeira, de máquinas e equipamentos, em que você não muda de mercado de um dia para o outro”, completou. (Foto: CNI; Fonte: Folha de SP)
