
Buzinas, discussões, fechadas e disputas por espaço fazem parte da rotina de quem enfrenta o trânsito nas grandes cidades brasileiras.
Para tentar reduzir esse ambiente de tensão, o ator Marcos Winter, conhecido por interpretar Jove na primeira versão de Pantanal, da Rede Manchete, e o administrador Thiago Paschoa trabalham em uma proposta que pretende transformar gestos de educação entre motoristas em uma forma padronizada de comunicação.
A iniciativa é chamada de “Luz de Obrigado”. A ideia consiste na instalação de um dispositivo luminoso azul na parte traseira dos veículos, acionado pelo motorista para agradecer outro condutor ou demonstrar arrependimento após uma situação no trânsito.
A proposta nasceu em 2004, quando Winter participava de um projeto experimental realizado em meio aos congestionamentos de São Paulo. Segundo o ator, foi naquele período que percebeu que, apesar do comportamento agressivo comum nas ruas, também havia situações de gentileza entre os motoristas.
“Eu percebi que existia gentileza no trânsito. Muitas pessoas eram gentis umas com as outras. Mas elas não tinham como retribuir essa gentileza”, relatou Winter.
A primeira versão do equipamento foi bastante simples. O ator instalou um LED azul em um Fusca amarelo de 1977 que havia herdado do pai. O dispositivo era acionado manualmente por meio de um comando dentro do carro.
Anos depois, o projeto ganhou uma estrutura mais elaborada após Winter conhecer Thiago Paschoa. Com experiência na indústria automotiva em São Bernardo do Campo, Paschoa passou a contribuir para o desenvolvimento técnico da ideia e para a avaliação de sua viabilidade regulatória.
A iniciativa recebeu em janeiro deste ano uma moção de apoio da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet). A entidade considera que a ferramenta pode contribuir para combater o chamado “road rage”, expressão usada para definir comportamentos agressivos provocados por estresse, irritação e impulsividade ao volante.
Os idealizadores também afirmam que a proposta encontra respaldo na Resolução 970/2022 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), que estabelece condições para a adoção de novas tecnologias nos veículos, desde que elas não prejudiquem os sistemas de sinalização obrigatórios.
Segundo Paschoa, a “Luz de Obrigado” pretende atuar justamente em uma área que ainda não possui um mecanismo específico previsto na legislação de trânsito: a comunicação cordial entre os condutores.
Além do equipamento físico, o projeto prevê a criação de um aplicativo. A ferramenta poderia contabilizar os acionamentos do dispositivo, identificar locais onde há maior concentração de conflitos e, posteriormente, cruzar essas informações com dados relacionados a acidentes e episódios de violência no trânsito.
A intenção é produzir indicadores capazes de medir se a adoção da tecnologia realmente provoca mudanças no comportamento dos motoristas.
“Para mim, a Luz de Obrigado não é futuro — está atrasada. E precisa existir para se tornar algo natural nas próximas gerações”, afirmou Paschoa.
Winter também defende que a evolução tecnológica dos automóveis não foi acompanhada por ferramentas voltadas à interação entre as pessoas que estão ao volante.
“Hoje a gente vê carros cada vez mais tecnológicos, com câmera de ré, câmera 360 graus, sensores de tudo quanto é tipo. Mas, até hoje, não existe no mundo um ato humano de agradecimento dentro do carro, um diálogo simples com outro motorista”, declarou.
A proposta já foi encaminhada à Abramet, que deverá levá-la à Frente Parlamentar de Medicina para a elaboração e eventual tramitação de um projeto de lei. Os responsáveis pela iniciativa também afirmam ter apresentado a ideia ao então ministro dos Transportes, Renan Filho.
Para os criadores, o obstáculo neste momento não está no desenvolvimento do dispositivo, mas na capacidade de levar a tecnologia para uma escala maior. A intenção é conquistar o apoio de montadoras e órgãos públicos para que a ferramenta possa ser incorporada aos veículos e se torne uma forma comum de comunicação no trânsito brasileiro. (Foto: divulgação; Fonte: Metrópoles)
