
Registros de entrada em órgãos públicos federais apontam que Roberta Luchsinger, apontada como próxima de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, realizou 42 visitas a estruturas do governo federal entre o início do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e abril de 2024. Desse total, 41 encontros não apareceram nas agendas oficiais dos agentes públicos envolvidos.
Os dados foram obtidos pelo jornal *O Estado de S. Paulo* por meio da Lei de Acesso à Informação e surgem em meio às investigações da Polícia Federal que apuram suspeitas de tráfico de influência envolvendo Lulinha e empresas com interesses junto ao governo federal.
Segundo os registros, as visitas não envolveram apenas contatos institucionais da lobista. Em pelo menos duas ocasiões, Luchsinger esteve em órgãos públicos acompanhada de Fernando Bittar, então sócio de Lulinha. Um dos encontros ocorreu no Palácio do Planalto e outro no Ministério do Desenvolvimento Social, comandado por Wellington Dias.
Em abril de 2024, os dois acessaram uma área restrita do Ministério do Desenvolvimento Social e permaneceram no local por cerca de 50 minutos. A pasta informou que a reunião tratou de “propostas sobre sistemas integrados”, mas negou que tenha havido qualquer consequência administrativa.
O gabinete de Wellington Dias aparece como um dos principais destinos da lobista, com 17 registros de entrada. Em março de 2023, Luchsinger esteve sozinha no local e entregou ao ministro uma caixa de chocolates suíços da marca Sprüngli e uma edição especial autografada do livro *O Alquimista*, de Paulo Coelho. O encontro teve registro fotográfico pelo cerimonial, mas não foi incluído na agenda oficial.
Parte das visitas ao ministério contou com representantes de empresas que buscavam apresentar soluções ao governo. Em quatro ocasiões, Luchsinger esteve acompanhada de Efrain Saavedra, gerente comercial da Duosystem, empresa interessada em fornecer sistemas para o Sistema Único de Assistência Social (SUAS).
Cinco dias após uma visita realizada em março de 2023, o Ministério do Desenvolvimento Social assinou um contrato de R$ 31 milhões com a 3STRUCTURE IT, empresa de Cleber Ribas de Oliveira. O empresário também aparece em investigações da Polícia Federal relacionadas a negociações envolvendo Lulinha e a Dataprev.
A movimentação também ocorreu no Ministério da Saúde. Segundo os registros, Luchsinger esteve 16 vezes na pasta sem que os encontros fossem incluídos nas agendas públicas. Em apenas uma ocasião houve registro oficial: em outubro de 2023, quando levou executivos da Duosystem para apresentar um sistema de gestão de leitos à Secretaria de Atenção Primária.
Fora da agenda, a lobista também se reuniu com o então secretário-executivo da Saúde, Swedenberger Barbosa, conhecido como Berger, acompanhada de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, preso na Operação Sem Desconto. O encontro teria tratado da comercialização de medicamentos à base de canabidiol pela empresa World Cannabis.
A Polícia Federal investiga se Lulinha teria atuado para facilitar negócios relacionados ao setor e se pagamentos feitos a Luchsinger teriam algum vínculo com o filho do presidente. A empresa da lobista, RL Consultoria, recebeu R$ 1,5 milhão de Antônio Carlos Camilo Antunes.
Em conversas obtidas pelos investigadores, o empresário teria determinado um repasse de R$ 300 mil para ela “para o filho do rapaz”, expressão que a PF avalia poder fazer referência a Lulinha.
Outro empresário levado por Luchsinger a órgãos públicos foi Sergio Roberto Bringel, do Grupo Bringel. De acordo com a reportagem, a lobista acompanhou representantes da empresa em três visitas ao Palácio do Planalto e ao Ministério da Saúde. Desde 2023, companhias ligadas ao grupo firmaram contratos de aproximadamente R$ 7,8 milhões com a pasta, incluindo um acordo de R$ 3 milhões com o Grupo Hospitalar Conceição.
Em julho de 2023, Luchsinger também esteve no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), acompanhando representantes da Unigel em uma reunião com o presidente da instituição, Aloizio Mercadante, sobre um projeto de hidrogênio verde que não avançou.
Na ocasião, ela teria se apresentado como “namorada” do diretor de relações governamentais da companhia e como “nora” do presidente do conselho da empresa. A Unigel negou qualquer vínculo familiar e afirmou não ter contratos com a lobista.
Por meio da Secretaria de Comunicação Social (Secom), o governo federal afirmou que os encontros realizados no Palácio do Planalto não geraram consequências administrativas, contratuais ou regulatórias. As defesas de Roberta Luchsinger e de Lulinha sustentam que a atuação dela foi profissional e negam qualquer pagamento destinado ao filho de Lula.
As investigações conduzidas pela Polícia Federal, autorizadas pelo ministro André Mendonça, buscam esclarecer se a proximidade de Lulinha com empresários e representantes de empresas foi utilizada para facilitar acesso a órgãos públicos.
O caso colocou sob análise a circulação de uma lobista próxima ao filho do presidente em ministérios e bancos públicos, principalmente diante da falta de registros oficiais de grande parte dos encontros. E mais: Urgente: PF pede abertura do 3º inquérito contra Lulinha. Clique AQUI para ver. (Foto: reprodução; Fonte: Estado de SP; Diário do Poder)
