
A marca de pães Nutrella teve seu futuro definido nessa sexta-feira (24), após ser vendida em leilão por R$ 4,7 milhões. O comprador, porém, ainda não teve a identidade divulgada e aparece apenas com um código de usuário na plataforma responsável pela disputa.
Com a inclusão da comissão de 5% destinada ao leiloeiro, o valor total da operação chega a R$ 4,935 milhões. O negócio encerra uma longa negociação envolvendo a Bimbo, dona da marca, e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que havia determinado a venda da Nutrella como condição para aprovar outra operação da companhia no Brasil.
O leilão foi conduzido pela Mega Leilões e ocorreu em duas etapas. Na primeira fase, somente empresas já atuantes no mercado de pães industrializados estavam autorizadas a participar. A maior proposta chegou a R$ 3 milhões, mas não houve comprador.
Como previsto no edital, uma segunda rodada foi aberta para empresas de outros segmentos alimentícios com atuação nacional. Foi nessa etapa que a disputa ganhou força, com 24 lances até alcançar a oferta final de R$ 4,7 milhões.
Antes da conclusão definitiva da venda, o comprador terá de cumprir algumas exigências. Até segunda-feira (27), o arrematante precisa comprovar capacidade financeira, produtiva, logística e operacional para administrar a marca. Após essa análise, caberá ao Cade decidir se aprova ou não a transferência.
O pacote negociado inclui não apenas a marca Nutrella, mas também direitos de propriedade intelectual, receitas, fórmulas, estoques e a carteira de clientes acumulada nos últimos 18 meses.
A venda da Nutrella não foi uma decisão voluntária da Bimbo. A operação ocorreu por determinação do Cade como uma das medidas para autorizar a aquisição da Wickbold pelo grupo mexicano, aprovada em setembro de 2025 por meio de um Acordo em Controle de Concentrações (ACC).
Pelo acordo firmado com o órgão regulador, a Bimbo precisaria se desfazer de duas marcas no mercado brasileiro: a Tá Pronto, que já foi transferida para a Pita Bread, e a Nutrella.
O objetivo do Cade era evitar uma concentração excessiva no setor de pães industrializados. Para isso, estabeleceu critérios para o novo proprietário da Nutrella, exigindo que o comprador fosse uma empresa de alimentos sem atuação predominante em pães industriais, tivesse distribuição nacional e apresentasse estrutura financeira suficiente para manter a operação.
Essas restrições acabaram dificultando a busca por interessados. Ao longo dos meses, a Bimbo apresentou quatro possíveis compradores ao Cade, mas nenhum deles foi aprovado pelo órgão.
Uma das empresas avaliadas foi descartada por enfrentar dificuldades financeiras e estar em recuperação judicial. Outro candidato também foi rejeitado porque, segundo o Cade, o plano apresentado era “predominantemente descritivo e prospectivo”, sem dados suficientes para demonstrar a sustentabilidade da operação.
Após meses de tentativas frustradas e um atraso de quatro meses além do prazo inicialmente concedido, o acordo permitiu que a marca fosse levada a leilão aberto, sem valor mínimo estabelecido.
A dificuldade em encontrar compradores também está relacionada às características exigidas pelo Cade. Em análises anteriores, o órgão apontou que poucas empresas de alimentos possuíam escala nacional e atuação em categorias próximas, como bolos e produtos de confeitaria industrializados.
Entre os nomes citados estavam a Selmi, fabricante das marcas Renata e Galo, e a Doceria Campos do Jordão, dona da Santa Edwiges. Empresas como Bauducco e M. Dias Branco também possuem forte presença nacional, mas foram excluídas das possibilidades porque atuam diretamente no segmento de pães, justamente a área em que o Cade buscava ampliar a concorrência.
A M. Dias Branco, inclusive, informou que não participaria da disputa, reduzindo ainda mais o número de empresas com capacidade para assumir a Nutrella.
Durante todo o processo, a Bimbo tentou encontrar um comprador por meio de negociações diretas, indicando uma expectativa de venda por valor superior ao obtido no leilão. A companhia também já havia apresentado questionamentos ao Cade sobre pontos do edital, o que mantém aberta a possibilidade de novos desdobramentos após a conclusão da operação. (Foto: reprodução site oficia; Fonte: Exame)
