
O ator Wagner Moura afirmou que gostaria de estabelecer um diálogo com pessoas de direita e disse estar desgastado com as críticas que recebe em razão de suas posições políticas. A declaração foi feita durante participação no programa “Conversa com Bial”, exibido na noite desta terça-feira (4).
Ao comentar os temas abordados pela peça “Um Julgamento”, atualmente em turnê, o artista falou sobre democracia, tolerância e os desafios do cenário político atual. Para ele, a convivência entre opiniões divergentes é essencial para a manutenção do regime democrático.
“A tolerância é um fator fundamental, um pilar da democracia. Você tem que ser tolerante. O que, para mim, é assustador é que não estamos mais vendo a realidade da mesma forma”, afirmou.
Segundo Wagner, o debate político se tornou mais difícil porque, além das divergências ideológicas, passou a existir desacordo até mesmo sobre os fatos.
“Eu lembro de uma época em que esquerda e direita, se a gente polarizar a coisa, brigavam, discutiam, mas estavam vendo o mesmo fato. Hoje, os fatos não importam mais. Não sei o que fazer. Se os fatos deixam de ser relevantes, deixam de existir, e passam a existir versões da realidade, se eu tenho a minha realidade e você tem a sua, e agora?”, questionou.
A entrevista foi gravada em Atenas, na Grécia. Durante a conversa, Wagner Moura relembrou os estudos que realizou para o filme “Guerra Civil”, lançado em 2024, e afirmou que a polarização representa um dos maiores riscos às democracias.
“A maior ameaça à democracia que esses caras inventaram aqui é a polarização. Fiz o filme ‘Guerra Civil’ e estudei muito sobre os fatores que levam países a deixarem de ser democráticos para se tornarem autoritários.”
Na avaliação do ator, a perda de confiança nas instituições favorece o surgimento de governos autoritários.
“A polarização política, o descrédito no governo, dizer ‘isso não me representa’ e ‘não preciso disso’ [complica]. Por isso, governos autoritários tendem a aparecer como se não fossem da política, como se estivessem fora do sistema. Vai se descredibilizando o sistema democrático, não apenas de eleger seus representantes, mas de você, como cidadão, interferir.”
Ao comentar o desfecho da peça teatral, em que personagens buscam a reconciliação familiar, Wagner defendeu que a empatia pode aproximar pessoas com visões políticas opostas.
“No final, o que importa é o amor. É um clichê, mas é verdade. É o afeto, é o que a gente sente pelas pessoas que estão próximas da gente. E, se tiver empatia suficiente, pelos outros também, inclusive os que pensam diferente da gente. Estou cansado de ser odiado por uma galera. É cansativo.”
Apesar das críticas que recebe, o ator afirmou que não pretende mudar sua postura. “Eu vou morrer dizendo as coisas que acho. Posso estar errado, mas a minha natureza é dizer o que penso.”
Wagner Moura também rebateu comentários de que teria abandonado princípios de esquerda após conquistar sucesso profissional e estabilidade financeira. Para ele, prosperar não deveria impedir alguém de defender políticas voltadas à justiça social.
“Quando eu estava lá em Rodelas [cidade na Bahia] e era pobre, aí eu poderia ser de esquerda, né? Parece que existe um portal pelo qual você passa. Queria saber qual é o teto, quanto você precisa ganhar para deixar de acreditar em justiça social.”
Em seguida, acrescentou: “Que portal é esse pelo qual você passa e, se prosperar no seu trabalho, tem que deixar de acreditar que os outros também merecem aquilo? Que você é uma exceção e conseguiu? Eu não entendo muito esse raciocínio.”
O ator também ironizou as críticas de que seria incoerente por viver fora do Brasil e defender pautas sociais.
“Eles falam: ‘Você é um hipócrita porque está aqui, em Atenas, tomando vinho com Pedro Bial e acredita que as pessoas que moram na favela merecem ser tratadas com decência’. Eu não entendo essa crítica.”
Ao recordar sua trajetória, Wagner afirmou que suas convicções permanecem as mesmas. “Eu sou o mesmo cara que estava em Rodelas, que presenciou o trabalho escravo e cujo pai era sargento. Eu sou esse cara.”
Segundo ele, políticas públicas de incentivo à cultura tiveram papel importante em sua carreira. O ator citou programas existentes em Salvador nos anos 1990, que, segundo afirmou, contribuíram para a formação de artistas como Vladimir Brichta e Lázaro Ramos.
“Eu prosperei porque, em Salvador, nos anos 1990, havia uma lei de incentivo à cultura que fez com que eu, Vladimir Brichta e Lázaro Ramos pudéssemos trabalhar, construir uma história e ter uma carreira de ator. Eu prosperei por isso.”
No encerramento da entrevista, Wagner disse considerar legítimos os debates defendidos pela direita sobre o tamanho do Estado, os gastos públicos e a carga tributária, mas lamentou que essas discussões, segundo ele, acabem sendo substituídas por ataques pessoais.
“Eu queria ter uma interação com a direita e poder conversar com eles sobre os assuntos que essa peça traz. Acho uma discussão superválida: o Estado tem que ser pequeno ou grande? Quanto o Estado tem que gastar? Isso é fundamental.”
Ele concluiu dizendo que o debate econômico poderia ser mais produtivo.
“A esquerda sempre diz: ‘A gente quer seguridade social, cultura e educação gratuita’. E a direita faz uma pergunta que acho justa: ‘Quem vai pagar? São os contribuintes? Vamos aumentar os impostos?’. Essa discussão é muito boa, mas ela não acontece… O papo dos caras é: ‘Ele mora nos Estados Unidos e trabalha lá, então não pode falar do Brasil’, ‘ele prosperou na carreira, como pode ser de esquerda?’, ‘não é gay e defende gay’, ‘não é preto e defende preto’.” (Foto: reprodução; Fonte: UOL)
