O Google venceu um leilão judicial para adquirir um extenso conjunto de dados da Spirit Airlines, companhia aérea de baixo custo que encerrou suas operações no primeiro semestre de 2026. A gigante de tecnologia ofereceu US$ 10 milhões pelo material, o equivalente a cerca de R$ 51,8 milhões, superando a proposta de US$ 7,5 milhões (R$ 38,8 milhões) apresentada pela startup americana de inteligência artificial Mercor.

A negociação, no entanto, ainda não está concluída. A venda foi incluída no processo de falência da Spirit e precisa ser analisada pela Justiça dos Estados Unidos. A Corte de Falências do Distrito Sul de Nova York poderá autorizar ou rejeitar a transferência dos dados.

O acervo reúne milhões de registros produzidos pela companhia ao longo de décadas e inclui informações operacionais, técnicas e administrativas. A operação chamou atenção principalmente pela quantidade de dados que poderá ser colocada à disposição do Google para o desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial.

O que está nos dados

Entre os materiais estão registros financeiros, documentos de fornecedores, modelos de previsão e relatórios de auditoria. O pacote também inclui informações sobre a operação da frota, como dados de movimentação de aeronaves, estatísticas referentes a mais de 74 milhões de voos, registros de manutenção e consumo de combustível.

A documentação relacionada à atividade comercial da companhia inclui dados sobre preços de passagens, reservas, vendas a bordo e transações envolvendo serviços como Wi-Fi e pacotes de viagem.

Também fazem parte do acervo informações relacionadas a aproximadamente 175 mil funcionários, incluindo registros de jornada, histórico de treinamentos e viagens corporativas.

Outro componente relevante são os repositórios de software da Spirit, que reúnem milhões de linhas de código, além do histórico de desenvolvimento e metadados de programação.

O material inclui ainda documentos jurídicos, como modelos de formulários, memorandos internos, arquivos de processos e contratos comerciais e trabalhistas.

A dimensão do acervo é ainda maior quando considerados os arquivos digitais que serão disponibilizados. Estão previstos aproximadamente 100 milhões de e-mails, 17 milhões de arquivos armazenados no OneDrive e cerca de 500 milhões de registros do Microsoft Teams.

Dados de passageiros ficaram fora

Apesar do volume de informações, o Google optou por não adquirir dados relacionados diretamente ao comportamento dos consumidores da Spirit.

Ficaram de fora do negócio informações como perfis individuais de passageiros, interações em redes sociais, conversas com a empresa, dados de programas de fidelidade, ligações telefônicas e informações relacionadas ao comércio eletrônico.

A Spirit informou que os dados que serão transferidos passarão por um processo de anonimização. A companhia está contratando uma empresa especializada e independente para realizar a desidentificação do material e verificar se o conjunto vendido está de acordo com as normas de privacidade aplicáveis.

Segundo um porta-voz da companhia aérea, a empresa considera a proteção das informações uma prioridade e pretende trabalhar com as partes envolvidas para solucionar eventuais questões relacionadas à privacidade.

Sindicato teme identificação de funcionários

A operação, entretanto, já provoca preocupação entre trabalhadores da companhia.

Um dos sindicatos que representam comissários de bordo nos Estados Unidos se posicionou contra a transferência de informações da categoria. A principal preocupação é que, mesmo após a anonimização, determinados conjuntos de dados possam ser cruzados com outras informações e permitir a identificação de indivíduos ou grupos pequenos.

Um exemplo seria a possibilidade de reconstruir a identidade de funcionários que pertenciam a uma determinada base operacional.

A preocupação está relacionada ao chamado risco de reidentificação, quando informações que aparentemente não identificam uma pessoa diretamente podem, após o cruzamento com outras bases de dados, permitir descobrir quem é o indivíduo.

Interesse do Google está na inteligência artificial

A principal motivação da gigante de tecnologia para adquirir o acervo estaria justamente na possibilidade de utilizá-lo para aprimorar seus sistemas de inteligência artificial.

Segundo informações divulgadas por veículos americanos, um porta-voz do Google afirmou que os dados podem ser úteis para melhorar produtos e tecnologias de IA desenvolvidos pela empresa.

A operação, portanto, representa uma forma de transformar o enorme acervo acumulado por uma companhia aérea ao longo de anos em material potencialmente útil para treinamento, análise e desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial.

Venda ocorre dentro do processo de falência

A negociação foi estruturada dentro do processo de Chapter 11, mecanismo da legislação americana semelhante, em alguns aspectos, ao processo de recuperação judicial existente no Brasil.

Como condição para a venda, as partes estabeleceram que informações pessoais capazes de identificar diretamente consumidores não poderão integrar o material transferido.

Antes da entrega ao comprador, os dados precisam passar obrigatoriamente pelo processo de “desidentificação”. A tarefa será realizada por uma empresa terceirizada contratada pela própria Spirit, que também deverá certificar a conformidade do material com as regras de privacidade.

Assim, embora o Google tenha vencido o leilão por US$ 10 milhões, a transferência efetiva dos dados ainda depende da análise da Justiça americana e da conclusão dos procedimentos de proteção e anonimização das informações. E mais: Quanto Henrique & Juliano faturaram em seu primeiro leilão de cavalos ‘Quarto de Milha’. Clique AQUI para ver. (Foto: divulgação; Fonte: UOL)

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