
De acordo com a CNN, integrantes do Ministério Público Federal relataram que as últimas 48 horas foram marcadas por constrangimento e perplexidade entre procuradores diante das menções ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, no relatório da Polícia Federal sobre a relação entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro.
A insatisfação também envolve a forma como Gonet passou a atuar após a divulgação do documento. O nome do procurador-geral aparece em mensagens trocadas entre Ciro Passos, advogado de Vorcaro, e o ex-dono do Banco Master. São 33 vezes, entre ele e seus familiares.
Segundo as mensagens, Gonet teria mantido uma relação de proximidade com Vorcaro por intermédio do advogado. Entre os episódios mencionados estão o envio de passagens aéreas internacionais para o filho de Gonet, conversas sobre charutos e whisky Macallan e até o compartilhamento de uma fotografia de Ciro Passos e Gonet com o banqueiro.
De acordo com relatos obtidos pela CNN, o ambiente interno do MPF é de silêncio diante das revelações. Procuradores atribuem parte desse comportamento a uma medida adotada neste ano pela gestão de Gonet, que teria restringido os espaços internos de manifestação e contribuído para conter críticas dentro da instituição.
A principal preocupação entre integrantes da carreira estaria relacionada ao grau de proximidade indicado pelas mensagens. Embora procuradores reconheçam que as conversas ocorreram antes de o caso Master ganhar as atuais proporções e defendam que Gonet deve receber o benefício da dúvida, há avaliação de que a relação demonstrada nos diálogos teria sido inadequada e poderia afetar o princípio da independência que orienta a atuação do Ministério Público.
Também houve críticas à velocidade com que Gonet reagiu ao relatório da Polícia Federal que revelou as mensagens envolvendo Moraes e o próprio procurador-geral. Poucas horas depois da divulgação do documento, Gonet pediu sua contestação e o arquivamento, embora o prazo para manifestação fosse de cinco dias.
A mesma postura teria sido adotada posteriormente em relação às denúncias apresentadas por Daniel Vorcaro em depoimento prestado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
O episódio passou a alimentar, entre procuradores influentes, uma discussão sobre a escolha do próximo procurador-geral da República. A proposta, ainda em estágio inicial, é que o próximo presidente volte a considerar uma lista tríplice formada por integrantes da carreira para indicar o chefe da PGR.
Esse modelo não é previsto atualmente de forma obrigatória pela Constituição. A tradição foi interrompida em 2019, quando Jair Bolsonaro escolheu Augusto Aras para comandar a Procuradoria-Geral da República, fora da lista apresentada pela categoria. Lula também não seguiu a lista em 2023, quando indicou Paulo Gonet e posteriormente o reconduziu para um segundo mandato.
Ainda de acordo com a CNN, a forma como os últimos procuradores-gerais chegaram ao cargo também levanta questionamentos sobre a independência da instituição.
Segundo relatos colhidos pela emissora, as articulações que envolveram Congresso e Supremo podem criar vínculos políticos incompatíveis com a função constitucional do procurador-geral, especialmente em investigações que envolvam autoridades do próprio STF.
Gonet também é visto por parte dos integrantes do MPF como próximo de ministros como Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes. Na avaliação desses procuradores, essa proximidade poderia dificultar uma atuação independente diante da atual crise.
Integrantes da categoria lembram ainda que os dois ministros teriam sido consultados por Lula durante o processo de escolha de Gonet. Para os críticos, esse histórico poderia dificultar uma eventual decisão do procurador-geral de abrir uma investigação envolvendo Moraes.
A estratégia defendida atualmente seria aguardar que a crise avance e, nas próximas semanas, retomar a pressão pela adoção da lista tríplice. A intenção é discutir uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que torne o mecanismo obrigatório para a escolha do procurador-geral.
Paulo Gonet permanece no cargo até dezembro de 2027. E mais: Substituto de Haddad diz que rombo de R$ 5,6 bilhões dos Correios não é prejuízo. Clique AQUI para ver. (Foto: EBC; Fonte: CNN)
