
Morreu aos 59 anos Lito Sousa, um dos principais nomes da divulgação sobre aviação no Brasil e criador do canal Aviões e Músicas.
O influenciador enfrentava a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma rara enfermidade neurodegenerativa, de evolução rápida e sem cura conhecida. A morte foi anunciada nesta quinta-feira (1º) pelo perfil oficial de Lito no Instagram, por meio de um vídeo de homenagem.
Antes de se tornar conhecido na internet, Lito, cujo nome de nascimento era Joselito Geraldo de Sousa, construiu uma carreira de décadas trabalhando diretamente com aeronaves. Aos 19 anos, em 1986, conseguiu seu primeiro emprego no setor, na Varig, enquanto ainda estudava. Antes disso, ainda adolescente, havia realizado um curso técnico ligado à Força Aérea Brasileira (FAB).
A experiência acumulada nos hangares acabou sendo levada para a internet. Em 2004, Lito criou o blog Aviões e Músicas, motivado, segundo seus relatos, pela maneira como assuntos relacionados à aviação eram apresentados na imprensa. Seis anos depois, o projeto ganhou um canal no YouTube.
O primeiro vídeo foi publicado em julho de 2011 e mostrava Lito entrevistando um expositor sobre uma aeronave experimental durante uma feira realizada em São Paulo. A partir dali, o canal passou a abordar temas que normalmente ficavam restritos a pilotos, mecânicos e engenheiros.
Turbulência, ruídos durante o voo, motores, procedimentos de emergência e acidentes aéreos eram explicados em uma linguagem acessível ao passageiro comum. A proposta ajudou o canal a crescer rapidamente. Lito chegou a superar 3,7 milhões de inscritos no YouTube e também ampliou sua presença para plataformas como Instagram e TikTok, além de participar de programas de televisão, podcasts e entrevistas.
Sua trajetória profissional na aviação também foi extensa. Depois da Varig, onde se tornou inspetor em menos de dois anos, trabalhou na Transbrasil e posteriormente ingressou na United Airlines. Permaneceu durante 25 anos na companhia norte-americana.
Ao recordar o início da carreira, Lito escreveu no LinkedIn em 2025: “Foram anos de aeroporto, ferramenta na mão e cabeça nos manuais”. Ele também descreveu aquele período como uma rotina marcada por “jornadas longas, folgas curtas e noites e madrugadas emendadas”.
“Natal e Ano Novo passados no pátio”, lembrou. Para ele, a experiência tinha uma relação direta com o princípio que orientou sua vida profissional: “Mas cada parafuso apertado com responsabilidade me ensinou algo maior: nunca negociar a segurança.”
A atuação como divulgador também levou Lito a publicar um livro. Em 2019, lançou Onde Morrem os Aviões, baseado em uma experiência profissional envolvendo aeronaves Electra da Varig que foram vendidas para o então Zaire, atual República Democrática do Congo. “Eu fui com as aeronaves para ensinar os mecânicos de lá a lidarem com elas. Foi uma experiência incrível, que se transformou em um livro sobre aviação”, contou à Globo em 2025.
Lito também se tornou piloto. A decisão surgiu depois de uma crítica recebida durante uma transmissão sobre simuladores de voo. Ao cometer um erro durante uma explicação, ele foi questionado por seguidores com a frase: “Ele não é piloto.”
Em vez de ignorar a provocação, decidiu documentar o próprio processo para conseguir a licença. Assim nasceu a série Decola Lito, que acompanhou as aulas, a preparação e, posteriormente, o primeiro voo solo, realizado em São José dos Campos, no interior paulista.
O registro do voo alcançou quase 1 milhão de visualizações. “Que sensação. Tinha chegado aquele momento que eu esperava tanto. Estava me sentindo muito bem, uma alegria. É inexplicável”, afirmou no vídeo.
Lito também fez questão de destacar o apoio recebido da esposa, Mila Seidl, com quem estava desde 2014. “Eu não chegaria aqui sozinho. Precisa ter muito apoio de amigos, parceiros, minha esposa.”
Em 2021, o influenciador criou ainda um curso destinado a pessoas que tinham medo de voar e, ao lado de Mila, fundou a Lito Aviation Academy, voltada à formação de profissionais como comissários, pilotos, mecânicos e engenheiros.
“Hoje, empreender para fortalecer a segurança de voo através de gente bem treinada é a missão que me move”, escreveu Lito no LinkedIn.
A relação com os seguidores ganhou uma nova dimensão nos últimos meses, quando o influenciador passou a compartilhar informações sobre os problemas de saúde que enfrentava. Inicialmente, em julho, revelou um diagnóstico de câncer de próstata e, posteriormente, relatou um quadro de inflamação no sistema nervoso.
Em agosto, Mila informou que os exames haviam identificado a doença de Creutzfeldt-Jakob. A condição é provocada pelo acúmulo de proteínas anormais conhecidas como príons e apresenta incidência estimada de um a dois casos por milhão de habitantes por ano no mundo. Atualmente, não existe tratamento aprovado capaz de interromper a progressão da doença.
Lito chegou a publicar um vídeo em inglês nas redes sociais pedindo uma oportunidade para participar de uma pesquisa experimental. “Oi, meu nome é Lito Sousa e tenho um apelo urgente para você. Por favor, ouça atentamente a seguinte mensagem. Este é um apelo urgente para a Ionis Pharmaceuticals, o Broad Institute, Harvard e a Mayo Clinic”, afirmou no início da gravação.
O pedido mobilizou seguidores que acompanharam seu trabalho durante anos. Em setembro, Mila informou que Lito havia recebido doses de uma medicação experimental, a ALN-6457, produzida pela norte-americana Regeneron Pharmaceuticals e ainda sem passagem pela fase de testes clínicos. A importação do medicamento havia sido autorizada pela Anvisa.
A morte de Lito encerra uma trajetória que uniu experiência profissional na aviação, produção de conteúdo, formação de novos profissionais e divulgação de informações sobre segurança aérea para milhões de pessoas. (Foto: reprodução; Fonte: Terra)
