A possível proibição das apostas online no Brasil, que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva pretende anunciar nesta sexta-feira (25), deve provocar impactos que vão além dos clubes de futebol. A medida pode atingir empregos, arrecadação federal, programas financiados com recursos das bets e o mercado publicitário das emissoras que transmitem eventos esportivos.

Segundo informações apresentadas pela CNN Brasil, o setor de apostas movimenta atualmente uma cadeia que reúne cerca de 15,5 mil postos de trabalho diretos e indiretos. Uma parcela significativa dessas vagas está ligada à área de tecnologia, já que as plataformas dependem de sistemas digitais para operar.

A eventual extinção desse mercado também levanta dúvidas sobre a arrecadação. De janeiro a julho de 2026, as apostas teriam gerado R$ 8,75 bilhões em receitas para o governo. O valor se soma aos cerca de R$ 2,5 bilhões pagos pelas empresas em outorgas no ano passado.

O Ministério da Fazenda, porém, tem afirmado que a arrecadação não é o principal fator considerado na decisão. A equipe econômica terá de lidar, ao mesmo tempo, com a perda de recursos que atualmente são destinados, pela legislação, a diferentes áreas do governo.

A regulamentação das apostas estabeleceu repasses para setores como saúde, assistência social e segurança pública. Com a eventual extinção do mercado legal, o governo precisará encontrar outras fontes orçamentárias para manter projetos que passaram a contar com esses recursos.

A situação também afeta diretamente o futebol. O governo já avalia mecanismos para ajudar os clubes a enfrentar a perda de receitas, incluindo linhas de crédito com juros mais baixos e renegociação de dívidas. Lula tem defendido que o futebol brasileiro consiga encontrar outras fontes de financiamento, como ocorria antes da expansão das bets.

Clubes da Série A e B já foram avisados por empresas de apostas sobre a possibilidade de encerramento imediato dos contratos caso uma medida provisória determine o fim das operações no país. Segundo levantamento citado pela Folha de S.Paulo, as bets investiram aproximadamente R$ 1,03 bilhão em patrocínios aos clubes da Série A em 2025.

O impacto, entretanto, não ficaria restrito aos times. As emissoras que transmitem futebol também dependem de publicidade do setor.

Segundo estudo da Tunad citado pela Folha, 55% das transmissões esportivas realizadas pela televisão brasileira contam com algum tipo de propaganda de casas de apostas. Em 2025, o investimento estimado em publicidade durante essas transmissões chegou a R$ 400 milhões.

Globo, Band, ESPN, TNT Sports e CazéTV estão entre as empresas que avaliam os efeitos de uma eventual interrupção dos contratos. As emissoras analisam os acordos já assinados e possíveis mecanismos de compensação ou multas em caso de rescisão.

Na Band, por exemplo, casas de apostas adquiriram os chamados “naming rights” de programas esportivos, incorporando suas marcas aos próprios nomes das atrações. A emissora ainda avalia como ficariam esses contratos caso o mercado seja proibido.

A Globo também possui uma cota exclusiva de publicidade de apostas vinculada às transmissões da Copa do Brasil e do Campeonato Brasileiro. Além disso, a emissora negociava um novo pacote de transmissões para 2027 com uma empresa do setor.

A possibilidade de redução da receita publicitária já provoca preocupação entre executivos das empresas de comunicação. Segundo a Folha, uma queda significativa nesses valores poderia resultar em cortes de pessoal. Há ainda profissionais que mantêm contratos individuais com empresas de apostas para publicidade em redes sociais, complementando sua renda.

O cenário ocorre enquanto o governo discute como implementar uma eventual proibição e, ao mesmo tempo, administrar os efeitos econômicos da medida. A regulamentação do mercado de apostas foi criada pelo próprio governo Lula, após um processo que começou em administrações anteriores e avançou para um modelo de operação legal e tributada.

Agora, caso a decisão pelo veto total seja confirmada, o governo terá de lidar com a transição de um mercado que passou a gerar empregos, patrocínios, publicidade e receitas públicas. Paralelamente, continuará enfrentando as questões que motivaram a ofensiva contra as apostas, como endividamento de famílias, dependência em jogos e impactos apontados na área de saúde pública.

A medida provisória deverá definir o alcance da proibição e as regras para a transição. O governo também estuda mecanismos para reduzir os efeitos sobre clubes e outros setores diretamente dependentes das receitas provenientes das bets.

 

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