Uma reportagem publicada pelo jornalista Cláudio Dantas levanta a possibilidade de que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), tenha sido alvo de um suposto monitoramento ilegal dentro da Polícia Federal. Conforme a publicação, a suspeita não estaria restrita ao ministro e poderia envolver outros integrantes da Corte.

Segundo o jornalista, dois ministros do STF e o assessor de um terceiro foram consultados sobre o relatório utilizado por Alexandre de Moraes para fundamentar acusações contra Mendonça. De acordo com essas fontes, o documento não teria características de um relatório oficial de inteligência da Polícia Federal.

A reportagem afirma que as fontes consideraram especialmente problemática a forma como o documento foi produzido e apresentado. Conforme Dantas, os ministros consultados disseram que o relatório não seguiria padrões conhecidos de documentos oficiais de inteligência e conteria análises de natureza política.

“Segundo eles, o relatório, que nem deveria existir, não segue qualquer padrão conhecido, contém análises que mais parecem elucubrações políticas e está repleto de ‘digitais’ de serviços tradicionais de IA, como Gemini, Claude e ChatGPT.”

Ainda de acordo com a reportagem, fontes ligadas à comunidade de inteligência também foram consultadas e chegaram a uma hipótese semelhante: a de que o documento poderia ter sido produzido de maneira clandestina, eventualmente por pessoas ligadas à Polícia Federal, mas sem que isso significasse uma produção oficial da instituição.

“Fontes da comunidade de inteligência também consultadas pela reportagem apontam para um documento provavelmente produzido de forma clandestina, ou seja, por gente da PF, mas fora da PF.”

Conforme mostra a reportagem, o documento passou a ganhar importância depois que Alexandre de Moraes pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, a abertura de investigação contra André Mendonça.

Moraes acusou Mendonça de supostas práticas de improbidade administrativa, abuso de poder e crime de responsabilidade. Segundo o pedido, o ministro teria interferido na condução de investigações relacionadas às fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e ao caso Banco Master.

A reportagem chama atenção, porém, para o fato de Moraes ter utilizado o chamado “relatório de inteligência” sem esclarecer quem o produziu ou quem teria solicitado sua elaboração.

Segundo Dantas, a análise do conteúdo do documento indicaria que sua elaboração estaria relacionada ao afastamento da equipe comandada pelo diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, das operações Compliance Zero e Sem Desconto. Esse afastamento teria ocorrido em meio a suspeitas de interferências e vazamentos.

Outro elemento destacado pelo jornalista é a referência, no cabeçalho do documento, a uma sequência de outros arquivos que fariam parte da pasta “2026-2-424-0005427-UADIP/CINQ/CGRC/DICOR”.

A sigla DICOR corresponde à Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção, estrutura da Polícia Federal.

Conforme a reportagem, a diretoria é comandada por Dennis Cali, descrito por Dantas como braço direito de Andrei Rodrigues. O delegado também é apontado na publicação como alguém que teria segurado uma investigação relacionada ao INSS envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.

O documento também faria referência a integrantes específicos da estrutura da PF. Um dos nomes mencionados é o delegado Wedson Cajé Lopes, identificado pela reportagem como “DPF CAJÉ”.

O nome aparece em um trecho relacionado às medidas tomadas por Mendonça para impedir o vazamento do relatório que continha mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes.

Segundo o relato reproduzido na reportagem, Mendonça teria convocado investigadores para uma reunião presencial em seu gabinete e entregue a eles uma cópia física de sua decisão. Na ocasião, segundo o documento, a versão assinada ainda não estaria disponível para os investigadores.

“Apenas no dia da entrega do resultado da determinação feita à PF, é que foi efetivamente dado acesso à via assinada e disponibilizada nos autos eletrônicos. “Por segurança, foi tirado print de tela pelo DPF CAJÉ, único integrante da equipe com acesso a essa decisão, assim como foi feito o download da decisão”.”

A reportagem afirma que, pelas funções descritas, o delegado mencionado provavelmente seria Wedson Cajé Lopes, coordenador de Repressão à Corrupção da Coordenação-Geral de Repressão à Corrupção, Crimes Financeiros e Lavagem de Dinheiro, dentro da DICOR.

Dantas informa que Cajé é delegado desde 2014 e já participou de investigações envolvendo diferentes autoridades e figuras políticas.

Para o jornalista, a presença do nome do delegado em um documento destinado a reunir elementos contra Mendonça levanta questionamentos sobre a dimensão da estrutura responsável pela elaboração do material.

Outro ponto considerado relevante na reportagem são as informações atribuídas a reuniões privadas de André Mendonça.

Segundo Dantas, o relatório utilizado por Moraes contém descrições de declarações feitas pelo ministro durante reuniões de trabalho que, em princípio, seriam reservadas.

Conforme a publicação, a presença dessas informações no documento provocou questionamentos entre ministros do Supremo, já que o conteúdo poderia ter chegado ao relatório apenas por meio de pessoas que participaram dos encontros ou mediante algum tipo de captação.

Outro episódio mencionado no relatório estaria relacionado a uma reunião ocorrida em 13 de agosto. O documento teria registrado:

“reunião presencial”, ocorrida em 13 de agosto, na qual “o relator manifestou percepção de que ACM Neto, candidato ao governo de Bahia, aparentaria estar exercendo atividade de representação de interesses dentro dos limites do permitido”.

Para o jornalista, a existência dessas informações no documento é um dos principais pontos que precisam ser esclarecidos. “Há outros exemplos semelhantes e a pergunta que se faz agora no STF é como essa informação foi parar no documento.”

A reportagem também relaciona essas suspeitas a um episódio anterior envolvendo os dois ministros.

Segundo Dantas, a imprensa havia noticiado um confronto verbal entre Moraes e Mendonça depois que o relator do caso Compliance Zero teria descoberto que sua equipe buscava confirmar se Alexandre de Moraes era o interlocutor de Daniel Vorcaro em mensagens encontradas no celular do banqueiro.

Conforme a publicação, naquele momento a apuração ainda estava sob sigilo. Mendonça teria questionado Moraes sobre a origem da informação.

A resposta atribuída a Moraes foi: “Tenho minhas fontes. Fui ministro da Justiça”

No trecho mais contundente da publicação, Cláudio Dantas afirma que os elementos reunidos levantam a possibilidade de uma estrutura clandestina dentro ou ao redor da Polícia Federal destinada a monitorar ministros do Supremo.

“Seja por informantes infiltrados ou uma eventual escuta ilegal, são cada vez mais fortes os indícios de que podemos estar diante de um escândalo ainda maior envolvendo o monitoramento ilegal de ministros do STF.” (Foto: STF)

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